Sonho, aquela pedrinha no sapato…

Não sou um grande fã da palavra “sonho”. É algo onírico, um futuro distante, relegado ao campo da impossibilidade. Prefiro pensar como nele como uma pedrinha no sapato, que incomoda quando você sabe que está indo na direção errada.

E que direção! Em certos momentos de minha carreira como publicitário eu ajudava a vender ideias que discordo, recebendo um salário confortável, cada vez mais desesperado para escrever. Minha fuga são as palavras.

Apesar de ter um emprego de gente normal, no fundo eu sempre fui escritor. Textos mal escritos, apagados ou publicados sempre fizeram parte de minha vida. Eu sempre soube que se dinheiro não fosse necessário, eu seria um escritor. Afinal, meus fins de semana e noites em busca do parágrafo perfeito, da personagem mais cativante, eram vividos com gosto.

Eu tinha um bom emprego. E uma pedrinha no sapato.

Sabe o que vem colado ao “chamado da aventura” na jornada do herói? A “recusa ao chamado”. É difícil sair da zona de conforto, deixar um emprego, ocupar o seu dia com o desconhecido. Até o dia em que o medo de não ter tentado se tornou mais forte que o medo de falhar. E a pedrinha virou um monstro.

Monstros também são criaturas do mundo dos sonhos, e não são bonitos. Eles corroem por dentro, colocam um filtro na sua percepção. Uma rotina normal torna-se insuportável. Um hábito torna-se um vício. A angústia torna-se combustível, que pode empurrar ou inflamar.

Há muitas maneiras de lidar com um monstro. Escolhi encará-lo de frente e me tornar “escritor profissional”. Daqueles que autografam na Bienal, vendem livros em feiras e dão palestras em escolas. Estou no comecinho da minha jornada, todo dia repito para mim mesmo:

Eu sou um escritor.

Parece bonito. Mas não é um tapinha nas costas, é um chute na bunda. O que faz um escritor? Escreve, escreve, escreve. Revisa, revisa revisa. Reescreve, reescreve, reescreve. Faz cursos de literatura, cursos de criação de personagens, vai em eventos literários, conhece outros escritores.

Ou seja, para ser um escritor eu precisei tornar isso prioridade na minha vida. Escrever pelo menos mil palavras em meu romance ou conto é sempre a primeira tarefa do dia. Economizar em determinadas áreas para poder ir a São Paulo em eventos literários, participar de coletâneas. Enviar obras, receber rejeições, enxague e repita.

O que eu quero dizer é que não acredito em glamour. Acredito em suor. “Ah é? Você quer ser um escritor de verdade? Então senta a bunda aí nessa cadeira e só levanta quando você me entregar as mil palavras do dia.” E parece que quanto mais eu trabalho, mais coisas boas acontecem.

Mas não sou só escritor.

Aluguel, supermercado, ração para a cachorra. Ok, eu trapaceei, não sou só escritor, também faço freelas de redação publicitária e invisto em outros projetos que devem dar retorno financeiro em mais ou menos um ano.

Para segurar as pontas nesse prazo, tenho o meu pé de meia. É a primeira recomendação antes de tentar qualquer coisa maluca assim. Uma reservinha financeira é uma boa rede de segurança para os seus saltos mais altos.

A questão vai além de ser autor. Quero trabalhar e viver de literatura. É um pouquinho diferente. Sou editor de uma revista bacanuda de ficção científica e fantasia chamada Trasgo, que pode se tornar, a longo prazo, uma outra fonte de renda.

Também existem freelas de leitura crítica, preparação de originais, dar aulas, e, quem sabe, trabalhar em uma editora. Estou no caminho para viver da minha própria produção literária, mas com um pezinho no chão, procurando outras fontes de renda dentro da literatura.

O caminho é tortuoso, como todo aquele vale a pena ser seguido.

Não tenho conclusões aqui, pois como eu disse, este é o começo da minha jornada. Mas deixo um convite para acompanhá-la, em textos que voltarão aqui no Blumerangue, em meu blog, e (em breve) novos canais.

E aí? Qual a pedrinha no seu sapato?

 
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  • O que eu faria se dinheiro não fosse um problema é uma pergunta sempre difícil de responder, porque a imagem mais forte na minha cabeça é que eu ficaria na praia bebendo caipirinha. O duro é que isso não gera renda. E nem dá um propósito na vida. Eu ainda estou em busca de um propósito, de um modelo de negócio rentável. Ainda estou com a pedrinha no sapato. Estou juntando XP antes de enfrentar os monstros da jornada.

    Obrigado por compartilhar sua vivência, Kampen, e boa sorte nela. Abs!

    • rodrigovk

      Monstros, monstros, monstros. Depois te conto pessoalmente que às vezes eles assustam de verdade, viu…

  • Julio

    Picasso uma vez disse: O propósito da vida é encontrar teu dom. O sentido dela é oferece-lo.
    Acredito em algo próximo disso. Acredito que esse “dom” que ele cita, são as coisas que vc ama fazer e faz com honestidade de sentimentos e de vontade. Aplicado isso à sua vida toda ou em alguns âmbitos dela, vc é capaz de oferecer o que vc tem de melhor para os outros. Um exemplo é o escritor que dá o seu melhor em seus livros ou um ator que entrega seu corpo e sua alma para um personagem.
    Sua partilha me ajudou a pensar nos meus calos e nas minhas pedras no sapato. É interessante entender como cada um improvisa e tambem faz as coisas de maneira planejada, pq ambos fazem parte do nosso todo, que chamamos de vida. É preciso acreditar, focar e se empenhar.

    Obrigado Kampen! Abs e keep walking.

    • rodrigovk

      Olá, Julio! Obrigado pelo comentário, cara.

      Que bom que eu ajudei você a pensar. 🙂 (Porque você precisa abrir logo aquela agência, hehehe)